Esteira de Turbulência
O que é a esteira
Toda asa que sustenta uma aeronave deixa atrás de si dois vórtices, um em cada ponta, que descem lentamente e se espalham. Quanto mais pesada a aeronave, mais fortes eles são. Uma aeronave menor que entra nesses vórtices sofre três efeitos1:
- balanço violento, que pode passar da capacidade de comando da aeronave para resistir a ele, e é o perigo maior;
- perda de altura ou de razão de subida;
- esforços na estrutura.
O risco é maior perto do solo. Na aproximação e na decolagem, a aeronave está lenta, baixa e com pouca margem de velocidade, empuxo e altura para se recuperar1.
A esteira é invisível. Ninguém consegue dizer com precisão onde ela está2. Por isso a norma não pede que você a veja: pede que você mantenha distância ou tempo suficientes para que ela se dissipe ou desça antes de a próxima aeronave passar.
Helicópteros
Helicópteros também produzem vórtices, proporcionalmente mais intensos que os de aviões do mesmo peso. Pairando ou em voo de táxi, o rotor sopra ar em alta velocidade até cerca de três vezes o diâmetro do rotor. Mantenha helicópteros nessas condições afastados de aeronaves LEVES3.
Categorias
Os mínimos de esteira dependem da categoria de cada aeronave, definida pelo peso máximo de decolagem certificado4:
| Categoria | Letra | Peso máximo de decolagem | Exemplos |
|---|---|---|---|
| SUPER | J | Tipos indicados no Doc 8643 | A388 |
| PESADA | H | 136.000 kg ou mais | B77W, B744, B789, A332, A359 |
| MÉDIA | M | Mais de 7.000 kg e menos de 136.000 kg | A320, B738, E195, AT76, B752 |
| LEVE | L | 7.000 kg ou menos | C172, PA34, C208, BE20 |
A categoria de cada tipo está no Doc 8643 da OACI4 e vem no item 9 do plano de voo, depois do tipo (A320/M, B77W/H, A388/J).
Aeronaves SUPER e PESADA devem dizer "super" ou "pesada" logo depois do indicativo de chamada no primeiro contato com cada órgão5.
*Centro Brasília, TAM 8084 pesada.
Grupos de esteira
O Anexo IV da ICA 100-37 traz uma classificação mais detalhada, em sete grupos (de A a G), que leva em conta também a envergadura. Ela só pode ser usada com aprovação do DECEA6 e não é aplicada na rede. Use as quatro categorias.
Quando aplicar
Os mínimos de esteira existem para reduzir o perigo da esteira, e não substituem os mínimos normais. Vale sempre o maior dos dois. Se o mínimo IFR for maior que o de esteira, aplique o mínimo IFR7.
Além dos casos definidos nesta página, você pode aplicar um mínimo de esteira em qualquer situação em que perceber um possível perigo de esteira, mesmo que nenhuma regra específica o exija8.
Com vigilância ATS
Com vigilância ATS, os mínimos de esteira são distâncias, medidas na tela como o mínimo radar9:
| À frente | Atrás | Mínimo |
|---|---|---|
SUPER (J) | PESADA (H) | 6 NM |
SUPER (J) | MÉDIA (M) | 7 NM |
SUPER (J) | LEVE (L) | 8 NM |
PESADA (H) | PESADA (H) | 4 NM |
PESADA (H) | MÉDIA (M) | 5 NM |
PESADA (H) | LEVE (L) | 6 NM |
MÉDIA (M) | LEVE (L) | 5 NM |
Os pares que não aparecem na tabela (MÉDIA atrás de MÉDIA, ou qualquer aeronave atrás de uma LEVE) não têm mínimo de esteira. Para eles vale o mínimo radar.
Esses mínimos valem na aproximação, na decolagem e em rota abaixo do FL 240, e só quando10:
- a aeronave de trás segue a rota da da frente, na mesma altitude ou menos de 1.000 pés abaixo;
- a aeronave de trás cruza a rota da da frente, na mesma altitude ou menos de 1.000 pés abaixo; ou
- as duas usam a mesma pista, ou pistas paralelas a menos de 760 m uma da outra.
A esteira desce. Por isso a regra só olha para quem está na mesma altitude ou até 1.000 pés abaixo da outra. Uma aeronave acima da trajetória da outra, ou mais de 1.000 pés abaixo dela, não precisa do mínimo de esteira.
Na prática
Só passam dos 5 NM do radar os mínimos de uma LEVE atrás de uma PESADA (6 NM) e os de qualquer aeronave atrás de um A388 (6, 7 e 8 NM). Na final de Guarulhos, com B77W e A320 alternando, o mínimo de esteira coincide com o radar (5 NM), mas some a folga para a compressão na final. Planeje 6 NM ou mais.
Na pista e sem vigilância
Sem vigilância, e na torre, os mínimos de esteira são tempos. Eles valem entre aeronaves que usam a mesma pista ou pistas próximas, e não dependem de a torre ter radar.
Pousos
Uma aeronave pousando atrás de outra mais pesada precisa de11:
| À frente | Atrás | Mínimo |
|---|---|---|
SUPER (J) | PESADA (H) | 2 min |
SUPER (J) | MÉDIA (M) | 3 min |
SUPER (J) | LEVE (L) | 4 min |
PESADA (H) | MÉDIA (M) | 2 min |
PESADA (H) ou MÉDIA (M) | LEVE (L) | 3 min |
Decolagens
Uma aeronave decolando atrás de outra mais pesada precisa de12:
| À frente | Atrás | Da cabeceira | De uma interseção |
|---|---|---|---|
SUPER (J) | PESADA (H) | 2 min | 3 min |
SUPER (J) | MÉDIA (M) ou LEVE (L) | 3 min | 4 min |
PESADA (H) | MÉDIA (M) ou LEVE (L) | 2 min | 3 min |
MÉDIA (M) | LEVE (L) | 2 min | 3 min |
A coluna "da cabeceira" vale quando as duas aeronaves usam13:
- a mesma pista;
- pistas paralelas a menos de 760 m uma da outra;
- pistas que se cruzam, se a trajetória prevista da segunda cruzar a da primeira na mesma altitude ou menos de 1.000 pés abaixo; ou
- pistas paralelas a 760 m ou mais, com a mesma condição de cruzamento de trajetórias.
A coluna "de uma interseção" vale quando a aeronave de trás decola de um ponto intermediário da mesma pista, ou de uma paralela a menos de 760 m. Ela começa a corrida mais adiante e sai do chão mais perto do ponto onde a da frente girou. Por isso o mínimo sobe 1 minuto14.
Pistas paralelas próximas
As duas pistas de Guarulhos ficam a cerca de 375 m uma da outra, menos de 760 m. Para a esteira, é como se fossem a mesma pista. Um A320 que decola da 09R logo depois de um B77W que decolou da 09L precisa dos mesmos 2 minutos que precisaria na mesma pista.
Cabeceira deslocada
Quando a cabeceira de pouso é deslocada e as trajetórias se cruzam, uma aeronave decolando depois de outra mais pesada que pousou, ou pousando depois de outra mais pesada que decolou, precisa dos mesmos tempos da decolagem da cabeceira: 2 min (H atrás de J, M ou L atrás de H, L atrás de M) ou 3 min (M ou L atrás de J)15.
Sentidos opostos
Quando uma aeronave mais pesada faz uma aproximação baixa ou uma arremetida, e uma mais leve vai decolar na mesma pista em sentido oposto, ou pousar em sentido oposto na mesma pista ou numa paralela a menos de 760 m, aplique16:
| Mais pesada | Mais leve | Mínimo |
|---|---|---|
SUPER (J) | PESADA (H) | 3 min |
SUPER (J) | MÉDIA (M) ou LEVE (L) | 4 min |
PESADA (H) | MÉDIA (M) ou LEVE (L) | 3 min |
MÉDIA (M) | LEVE (L) | 3 min |
Boa prática
Na torre, anote a hora em que a aeronave mais pesada sai do chão (ou cruza a cabeceira, no pouso), e só autorize a próxima depois do tempo de esteira. Avise o piloto do motivo da espera. Na rede, ele nem sempre sabe que precisa esperar e pode estranhar a demora com a pista livre.
Quando a esteira não é obrigatória
O controle não precisa aplicar a separação de esteira em dois casos17:
- VFR pousando na mesma pista, atrás de uma aeronave SUPER, PESADA ou MÉDIA;
- IFR fazendo aproximação visual, depois de informar que avistou a aeronave da frente e de ser instruído a segui-la e manter a própria separação.
Nesses casos, e sempre que achar necessário, você deve emitir um aviso de esteira de turbulência. A partir daí, cabe ao piloto decidir se o espaçamento em relação à aeronave mais pesada é aceitável e, se não for, pedir mais separação18.
PUA 646, autorizado aproximação visual pista 35, mantenha própria separação do B747 precedente, atenção esteira de turbulência.
Avisos e pedidos do piloto
O aviso de esteira de turbulência dá ao piloto o que ele precisa para se proteger: o tipo da aeronave que gera a esteira e onde ela está19.
PT KTU, atenção, esteira de turbulência B747, doze horas, 7 milhas, passa FL 120 em subida.
PT ABC, atenção, esteira de turbulência Lear Jet partindo para Campinas.
Aeronaves SUPER pedem atenção extra20:
- Avise a aeronave que segue uma SUPER subindo ou descendo a menos de 15 NM dela.
- Se um piloto pedir um desvio lateral, mais separação ou outro nível para evitar a esteira de uma SUPER que cruza a sua rota, atenda sempre que possível.
-
ICA 100-37, Art. 205 e §§ 1° e 2°. Ver ICA 100-37. ↩↩
-
ICA 100-37, Art. 211, § 1°. ↩
-
ICA 100-37, Art. 207 e §§ 1° e 2°. ↩
-
ICA 100-37, Art. 208, e MCA 100-16, Art. 54. Ver MCA 100-16. ↩
-
ICA 100-37, Art. 209, e Anexo IV, Art. 1°. ↩
-
ICA 100-37, Art. 210 e parágrafo único. ↩
-
ICA 100-37, Art. 211. ↩
-
ICA 100-37, Arts. 212 e 959, Tabela 11. ↩
-
ICA 100-37, Arts. 959 e 960. ↩
-
ICA 100-37, Art. 215. ↩
-
ICA 100-37, Arts. 217 e 218. ↩
-
ICA 100-37, Art. 216. ↩
-
ICA 100-37, Art. 218. ↩
-
ICA 100-37, Art. 219. ↩
-
ICA 100-37, Arts. 220 e 221. ↩
-
ICA 100-37, Art. 213. ↩
-
ICA 100-37, Art. 214 e §§ 1° e 2°. Fraseologia do MCA 100-16, Art. 86. ↩
-
MCA 100-16, Art. 86. ↩
-
ICA 100-37, Art. 206, §§ 2° e 3°. ↩