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Fundamentos da Separação

O que é separar

Para prestar o Serviço de Controle de Tráfego Aéreo, o órgão ATC precisa saber onde está cada aeronave e para onde ela vai, determinar a posição de uma em relação à outra e emitir autorizações e informações para prevenir colisões e manter o tráfego fluindo em ordem1. Separar é a parte disso que tem número: manter entre duas aeronaves, no mínimo, uma distância vertical, lateral ou longitudinal definida pela norma. Esse número é o mínimo de separação.

O mínimo é um piso, não uma meta. Duas regras gerais valem para todos os mínimos deste manual:

  • Nenhuma autorização pode reduzir a separação abaixo do mínimo aplicável. Isso vale para qualquer manobra que você autorize, e não só para as que você planejou2.
  • Se a separação em uso não puder ser mantida, estabeleça outra antes de perder a primeira. Se duas aeronaves estão separadas por nível e uma precisa descer, a separação horizontal já deve existir quando ela deixar o nível3.

Quando uma falha ou degradação de equipamento (navegação, comunicação, altímetro ou outro sistema) deixa a aeronave abaixo do desempenho exigido, a tripulação deve avisar, e o controlador passa a usar outro tipo ou outro mínimo de separação4. Em circunstâncias excepcionais, como interferência ilícita ou dificuldade de navegação, aplique separações maiores que os mínimos5.

Quem recebe separação

O controle não separa todo mundo de todo mundo. A obrigação depende da classe do espaço aéreo e das regras de voo de cada aeronave6:

Classe O controle separa
A e B Todos os voos entre si
C IFR de IFR e IFR de VFR. VFR de VFR, não
D e E Só IFR de IFR
F IFR de IFR, se for prático e possível
Qualquer classe IFR de VFR especial, e VFR especial de VFR especial

Onde o controle não separa, ele informa. Na classe D, por exemplo, um IFR e um VFR recebem informação de tráfego um sobre o outro, e cabe aos pilotos se manterem afastados. As classes e o serviço que cada uma recebe estão no Manual de Espaço Aéreo e Serviços ATS.

Tráfego de aeródromo

Na torre, além do que a classe exige, a separação entre aeronaves que usam a mesma pista segue regras próprias de pista e de esteira de turbulência. Elas estão em Separação no Aeródromo.

As formas de separação

A separação pode ser dada de três formas7:

Forma Como Página
Vertical Níveis ou altitudes diferentes Separação Vertical
Horizontal lateral Rotas diferentes, ou áreas geográficas diferentes Separação Horizontal
Horizontal longitudinal Um intervalo de tempo ou distância entre aeronaves na mesma rota, em rotas opostas ou que se cruzam Separação Horizontal

Basta uma delas. Duas aeronaves com 1.000 pés de diferença estão separadas, mesmo se uma estiver exatamente acima da outra. Duas aeronaves no mesmo nível a 5 NM uma da outra, com vigilância ATS, também estão.

Existe ainda a separação composta, que combina a vertical com uma horizontal usando metade de cada mínimo. Ela só pode ser aplicada onde o DECEA autorizar8 e não é usada na rede.

Com ou sem vigilância ATS

Os mínimos horizontais mudam muito conforme o controlador tenha ou não vigilância ATS (radar, ADS-B ou MLAT):

  • Com vigilância, você mede a distância entre os alvos na tela. O mínimo normal é de 5 NM.
  • Sem vigilância, a separação é convencional. Você depende de reportes de posição, estimados e distâncias DME ou GNSS informados pelo piloto, e os mínimos são muito maiores: 10 a 15 minutos, ou 20 NM.

Na Vatsim Brasil, quase toda posição de APP e de CTR tem vigilância, e a separação convencional aparece pouco no continente. Mesmo assim, ela continua importante. Ela é a base do controle oceânico, é o que sobra quando um alvo some da tela e explica regras que o controle radar herdou, como os mínimos de partida.

Própria separação em VMC

Nas classes D e E, um voo controlado pode pedir para manter a própria separação em relação a outra aeronave, permanecendo em condições meteorológicas visuais (VMC). Quando o outro piloto concorda, o controle pode autorizar9. Isso vale também para IFR, e é a exceção prevista à regra de separar IFR de IFR10.

As condições são9:

  • só de dia;
  • só para uma parte específica do voo, na subida ou na descida, a 10.000 pés ou abaixo;
  • se houver risco de não manter VMC, você dá uma instrução alternativa, para o caso de o piloto não conseguir manter as condições visuais durante a autorização;
  • se as condições estiverem piorando, o piloto avisa antes de entrar em IMC e cumpre a instrução alternativa.

Durante esse trecho, o controle não aplica separação entre as duas aeronaves. Os pilotos é que se mantêm afastados um do outro11.

PT ABC, tráfego Boeing 737, na radial 084 do VOR Cuiabá, subindo VMC até FL 140.

GLO 1844, autorizado descida em VMC.

FAB 2123, mantenha sua própria separação.

Fonte: MCA 100-1616.

A aproximação visual com instrução de seguir e manter a própria separação da aeronave da frente é o caso mais comum dessa ideia. Ela está no Manual de Vetoração e Sequenciamento.

Tráfego essencial

Tráfego essencial é o tráfego controlado a que o controle deveria dar separação, mas que, em relação a um certo voo, não está ou não estará separado dele pelos mínimos12. Isso acontece justamente na própria separação em VMC, ou quando um mínimo foi perdido.

Sempre que dois voos controlados forem tráfego essencial um para o outro, informe ambos13. A informação contém14:

  • a direção do voo e o tipo da aeronave;
  • a categoria de esteira de turbulência, mas só se a outra aeronave for de categoria mais pesada do que a que recebe a informação;
  • o nível e uma das seguintes informações: a hora estimada no ponto de notificação mais próximo de onde os níveis vão se cruzar, a posição relativa pelo relógio e a distância, ou a posição real ou estimada.

Um voo VFR nunca é tráfego essencial para outro VFR, a não ser na classe B15.


  1. ICA 100-37, Art. 30, incisos I a III. Ver ICA 100-37. ↩

  2. ICA 100-37, Art. 39, § 8°. ↩

  3. ICA 100-37, Art. 42. ↩

  4. ICA 100-37, Art. 43 e parágrafo único, e Art. 337. ↩

  5. ICA 100-37, Art. 41 e §§ 1° e 2°. ↩

  6. ICA 100-37, Art. 39, incisos I a V e § 1°. ↩

  7. ICA 100-37, Art. 39, § 2°, incisos I e II, e Art. 334. ↩

  8. ICA 100-37, Art. 39, § 2°, inciso III, e § 3°. ↩

  9. ICA 100-37, Art. 94 e § 1°. ↩↩

  10. ICA 100-37, Art. 40. ↩

  11. ICA 100-37, Art. 94, §§ 2° e 3°. ↩

  12. ICA 100-37, Art. 114. ↩

  13. ICA 100-37, Art. 115 e parágrafo único. ↩

  14. ICA 100-37, Art. 116. ↩

  15. ICA 100-37, Art. 114, § 4°. ↩

  16. MCA 100-16, Art. 117. Ver MCA 100-16. ↩